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Quinta Feira, 17 de Maio de 2012 | ISSN 1980-4288


Filosofia, algo distante ou próximo?

Talvez a primeira resposta, quase instintiva, à pergunta proposta pelo título deste artigo, consiste em dizer que a Filosofia é algo distante do universo das pessoas comuns

Por | João B. Herkenhoff - Quinta Feira, 24 de Novembro de 2011





Será correta esta primeira percepção?


A meu ver, essa percepção está equivocada.


A Filosofia não é alguma coisa distante, que só interessa a uma grei de iniciados. Muito pelo contrário, a Filosofia faz parte de nossa vida.


Se a Filosofia fosse alguma coisa remota, quase localizada na mansão dos deuses, qualquer escrito tratando de Filosofia deveria estar localizado num espaço restrito, cuja chave estaria guardada num enconderijo secretíssimo.


Como a Filosofia faz parte do cotidiano das pessoas comuns, esta reflexão está bem colocada em veículo destinado a uma grande variedade de leitores.


Feito este preâmbulo, continuemos.


Segundo Santo Tomás de Aquino, a Filosofia é a ciência dos primeiros princípios, das primeiras causas".


Marilena Chauí aponta que a reflexão filosófica, qualquer que seja o domínio a que se dirija, guia-se por três propósitos:


Primeiro - investigar o que a coisa é; qual a realidade, a natureza e a significação da coisa;


Segundo - como a coisa é, sua estrutura; quais as relações que constituem uma coisa;


Terceiro - por que a coisa existe, por que é como é; origem e causa de uma coisa, ideia ou valor.


José Luongo da Silveira observa que a inquietação existencial faz com que o homem nunca se detenha na procura do conhecimento, nunca se satisfaça plenamente com as explicações encontradas:


"A sua estrutura cognitiva parece uma alavanca que desencadeia a busca de plenitude, caminhando sempre em direção de novas elaborações racionais numa estrada sem fim. "


Para Miguel Reale "parece acertado dizer-se que a missão da Filosofia seja receber os resultados das ciências e coordená-los em uma unidade nova."


Djacir Menezes assinala que a reflexão e a crítica constituem as determinações essenciais do espírito filosófico".


Oliveiros Litrento vê como objeto da Filosofia "a procura da razão de ser do homem e da vida".


Existe o substantivo "filosofia" e o verbo "filosofar". Filosofar é pensar a partir da Filosofia, ou seja, filosofar é pensar com os instrumentos da Filosofia, filosofar é exercitar a reflexão filosófica.


A sabedoria latina nos ensina que toda ciência principia pelo significado das palavras: "omnia scientia a significatione verborum incipit". Mas a mesma sabedoria clássica adverte para a dificuldade de definir, o perigo de definir: "omnis definitio periculosa est".


A palavra "filosofia" resulta da justaposição de dois vocábulos gregos: filos (amigo) e sofia (sabedoria). A Filosofia é, assim, etimologicamente, o amor à sabedoria, e o filósofo é um amigo da sabedoria.


Segundo Cícero, a palavra filosofia foi criada por Pitágoras. Comparecendo à face de Policrates, tirano de Samos, que lhe indagou a profissão, Pitágoras respondeu que não era um sábio, mas apenas um filósofo, ou seja, um amigo da sabedoria. Segundo ele, a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la ou amá-la tornando-se filósofos.


Pitágoras estava certo na sua humildade. Na busca da verdade, supôs que o número seria o princípio essencial de que todas as coisas são compostas (Todas as coisas são números). Equivocou-se na tentativa de explicar, por meio da verdade numérica, a globalidade dos fenômenos físicos e humanos. Sua intuição foi posteriormente contestada. Não obstante isso, seu nome permanece inscrito na História do Pensamento (até hoje se estuda, mesmo nas escolas de segundo grau, o teorema de Pitágoras).


Também Platão foi humilde, reconhecendo a limitação do espírito humano, quando escreveu que o filósofo deseja a sabedoria. Ele não disse que o filósofo possui a sabedoria, ou que é detentor da sabedoria, mas apenas deseja a sabedoria.
 

 

 

Autor:


João Baptista Herkenhoff, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo e escritor. Autor de: Filosofia do Direito (GZ Editora, Rio, 2010). Acaba de lançar: Curso de Direitos Humanos (Editora Santuário, Aparecida, SP).


E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

 

Homepage: www.jbherkenhoff.com.br



Palavras-chave | filosofia; percepção; reflexão; sabedoria

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